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A (in)completude do outro?

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Uma determinada foto me chamou muito a atenção. Vi no status do WhatsApp, há um tempo, e me chamou a atenção pois eu sabia que tinha um significado para aquela pessoa que estava postando a foto. E, há algumas semanas, recebi novamente a foto através do grupo do Telegram “Psicanálise e você”. E o dizer da foto vinha com: "A pessoa que te aconselha não é perfeita e tem seus próprios problemas. Mas talvez ela te dê a peça que está faltando em você". E, nos debates (sempre muito bons!) entre os membros do grupo, surgiram algumas questões que gostaria de dividir com vocês, aqui, nos textos. A foto é isso, autoexplicativa: um está bastante incompleto. Faltam muitas partes dele. Mas, ainda assim, ele oferece uma peça (que, para mim, parece dele mesmo, da sua própria incompletude) para o outro, que tem apenas um único espaço vazio. Este espaço vazio que está na altura do coração. Me lembra do mito do Kyron, do Curador Ferido.  Um membro do grupo do Telegram acredita que nem sempre as...

Tudo novo

Novos ciclos, novos começos são sempre muito bons, pois parecem uma folha em branco. Aquela agenda nova. Ou aquele caderno com todas as folhas em branco, prontas para serem escritas. Um caderno pronto pra virar diário. De um lado, tem o entusiasmo de tudo branquinho para poder iniciar. Seja uma escrita, uma pintura, um recorte, o que desejar fazer, ali, naquele espaço, naquela possibilidade mil. E, por outro, o incômodo das múltiplas possibilidades. A incerteza, a angústia de não-ter-o-que-fazer. Quem que diz o que eu tenho que fazer aqui? Assim é a vida. As possibilidades de escolhas. O não-gabarito. A voz interna - tão difícil de ser ouvida - que dirá o que fazer.  Toda nova possibilidade de caminho, na vida, começa quando você está de frente para aquilo que tem que iniciar. Para o seu caderno, em branco, novo. Caderno pode ser qualquer coisa. Até uma relação, ou um lugar. O que fazer com estes sentimentos contraditórios? O que vai definir a sua primeira ação? A paralisação é tam...

O caminho da individuação

O ser humano é o único que habita a tensão entre duas naturezas. Ele é a manifestação do agora, mas é também um constante vir-a-ser no tempo. Existe nele a potência da metamorfose , a capacidade de expandir os limites da alma e realizar o que está latente em sua estrutura psíquica. Através do alargamento da consciência e do exercício do desejo, o indivíduo torna-se capaz de confrontar seus próprios conteúdos internos. Conhecer-se não é apenas um ato intelectual, mas um processo de iluminar as sombras para transformar complexos, emoções e ações. O objetivo não é meramente o conforto, mas a totalidade  - o encontro com o centro da própria psique. Toda mudança genuína gira em torno de um eixo: o desabrochar do Si-mesmo (Self) . É o movimento de despertar o Ego para que ele deixe de ser o senhor absoluto e passe a servir à verdade do seu ser essencial. É o chamado para que você retire as máscaras e assuma sua face legítima perante a vida. Nesta jornada em direção à luz da consciência,...

A escrita como alquimia da Alma: o caminho para o Si-Mesmo

Escrever é um ato terapêutico. Pode ser uma carta para você mesmo, um bilhete para outra pessoa ou apenas anotações livres para si mesmo. E, claro, existe aquele caderninho de sonhos ao lado da cama - um verdadeiro portal para as mensagens que o nosso inconsciente nos envia enquanto dormimos. Quando falo em escrever, não me refiro a simplesmente "digitar" em telas e teclados. Refiro-me ao ato físico de segurar a caneta e rabiscar o papel, exatamente como faziam os nossos antepassados. Esse movimento manual é quase um ritual : é o corpo ajudando a trazer para o mundo visível o que antes estava guardado nas profundezas da nossa mente. Revelando o que está na sombra A escrita nos salva de nós mesmos porque nos permite olhar para aquilo que, muitas vezes, evitamos no dia a dia. É no papel que depositamos os nossos medos, dores e segredos - aquilo que na Psicologia  Junguiana chamamos de  sombra . Enquanto apenas pensamos, o conteúdo pode parecer assustador ou confuso. Mas, quand...

O invisível diante de nós

Existe algo que, mesmo depois de anos de caminhada, ainda me toca profundamente no cotidiano: a nossa capacidade de não enxergar. Hoje, usamos o termo " pessoas em situação de rua ", e não há definição mais precisa. A rua é lugar de passagem, de fluxo, de movimento. Ninguém " mora " na rua; a pessoa está, temporariamente (ou tragicamente), detida nela. No entanto, essas pessoas estão em toda parte: na porta do nosso prédio, ao lado do restaurante da moda, sob a marquise da loja onde compramos nossos desejos. A invisibilidade do "não-Outro" O que me espanta é a invisibilidade social . Para a maioria de nós, o mundo se resume ao " eu " ou ao " meu ": o meu celular, a minha rede social, o meu colega. A pessoa na calçada torna-se o não-outro . Passamos por cima de vidas como se fossem obstáculos geográficos. Não vemos que aquele papelão é, na verdade, um armário, uma cama, uma mesa, um refúgio. Ignoramos que ali existe fome, silêncio e, aci...

O silêncio e o verbo

O silêncio, em geral, nosso e do outro, é bastante protetor. A gente se protege no silêncio. Por outro lado, em algumas situações, é preciso que nos coloquemos, que falemos, que seja verbalizado (em verbo mesmo), para que não adoeçamos, e nem para que alguém nos engula. Ou seja: tanto as palavras quanto o silêncio são essenciais no nosso dia-a-dia. Cabe a cada um de nós saber a hora de um e a hora do outro. O silêncio pode até ser lido como o "sair". A hora de estar e a hora de ir. É preciso silenciar quando estamos com o outro que não ouve, que não recebe (ou não quer), que não aprende, que não troca. Aquelas pessoas que expõem os seus pensamentos de forma ríspida, agressiva, como "donos do mundo", ou "donos do outro", merecem o nosso silêncio. Pessoas que sabem tudo e demais sobre o mundo, sobre as coisas, sobre as pessoas, não abrem o espaço para a troca. Para estas, o nosso silêncio. No entanto, é importante falar quando os nossos limites são ultrapass...

A vida perdeu o sentido porque deixamos de sentir

Nós nos orgulhamos da nossa racionalidade. Acreditamos que o ápice da evolução humana é o intelecto, essa máquina poderosa capaz de criar aviões, moedas e diagnósticos precisos. O   p ensamento   é, de fato, uma função brilhante da mente: ele organiza, analisa e constrói. O problema começa quando transformamos o pensamento em um tirano. Na Psicologia Junguiana, dizemos que o equilíbrio psíquico depende de quatro funções: Pensamento, Sentimento, Sensação e Intuição. Mas a nossa cultura nos ensina a hipertrofiar o pensar e atrofiar o  se ntir . O Pensamento que nos Aprisiona Muitas vezes, o que chamamos de " pensar " não é mais uma função criativa, mas sim uma  ruminação . É a mente girando, presa em um labirinto de " e se? " e preocupações. Tentamos antecipar desastres para nos sentirmos seguros, mas o preço dessa " segurança " é o esgotamento. Sabe aquela frase:  "Pensar no pior é melhor, porque o que vier é lucro" ? Isso é uma armadilha da consc...