A vida perdeu o sentido porque deixamos de sentir
Nós nos orgulhamos da nossa racionalidade. Acreditamos que o ápice da evolução humana é o intelecto, essa máquina poderosa capaz de criar aviões, moedas e diagnósticos precisos. O pensamento é, de fato, uma função brilhante da mente: ele organiza, analisa e constrói.
O problema começa quando transformamos o pensamento em um tirano. Na Psicologia Junguiana, dizemos que o equilíbrio psíquico depende de quatro funções: Pensamento, Sentimento, Sensação e Intuição. Mas a nossa cultura nos ensina a hipertrofiar o pensar e atrofiar o sentir.
O Pensamento que nos Aprisiona
Muitas vezes, o que chamamos de "pensar" não é mais uma função criativa, mas sim uma ruminação. É a mente girando, presa em um labirinto de "e se?" e preocupações. Tentamos antecipar desastres para nos sentirmos seguros, mas o preço dessa "segurança" é o esgotamento.
Sabe aquela frase: "Pensar no pior é melhor, porque o que vier é lucro"? Isso é uma armadilha da consciência. Ao ruminar o pior, você já está vivendo o pior no seu corpo e na sua alma hoje. A ruminação é um pensamento que perdeu o contato com a vida e se tornou um mecanismo de defesa rígido.
Sentir não é "coisa de gente fraca"
Muitos pacientes chegam ao consultório e, quando pergunto: "Qual o sentimento sobre isso que me contou?", eles respondem: "Eu acho que...", ou volta a dar exemplos do fato. Percebe a confusão? O Achar é do pensamento. O Sentir é outra coisa.
O Sentimento, para Jung, não é um "emocionalismo" bobo. É a função que dá valor às coisas. É o sentimento que nos diz se algo é bom ou ruim para nós, se algo é belo ou se faz o coração vibrar. Sem ele, a vida perde o colorido. Fica "sem sentido" porque o sentido não é uma conta matemática, é uma experiência de valor.
A máscara da inteligência (a Persona)
Hoje, existe uma pressão para "parecer inteligente". Precisamos ser cults, filosóficos, produtivos. Criamos uma Persona (conhecida como uma máscara social; vem daí o personagem) de intelectuais resolutivos, enquanto o nosso mundo interno está árido. Dizemos que "não temos tempo para sentir" ou que o sentimento é "coisa boba". Esse desprezo pelo feminino e pelo sensível nos desconecta de três níveis essenciais:
Da sensação: Não sentimos mais o corpo, o pé no chão, o sabor da comida. Vivemos "da cabeça para cima".
Da Intuição: Paramos de ouvir aquela voz interior que nos guia para além da lógica.
Do próprio Eu: Ficamos reféns de telas e expectativas externas, esquecendo quem somos de verdade.
O convite: volte a habitar-se
A cura para o vazio não está em pensar mais, mas em integrar.
A vida recupera o sentido quando o pensamento volta a ser uma ferramenta e o sentimento volta a ser o mestre do valor.
O que fazer hoje?
Sinta o seu corpo: Sinta a textura da sua roupa, o cheiro do café, o ritmo da sua respiração. Isso é a função Sensação te trazendo para o agora.
Valide seus "não-desejos": Se o seu corpo sente um aperto diante de um convite, respeite. Isso é o seu Sentimento te protegendo.
Saia da cabeça e desça para o coração: Da próxima vez que se pegar ruminando, pergunte-se: "Onde eu sinto essa angústia no meu corpo?". Dê nome ao sentimento. Nomear é o primeiro passo para conhecer.
O sentido da vida não é algo que se encontra nos livros, mas algo que se sente na conexão profunda entre você e a sua própria alma. É do lado de dentro que a vida volta a fazer sentido.
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