O invisível diante de nós
Existe algo que, mesmo depois de anos de caminhada, ainda me toca profundamente no cotidiano: a nossa capacidade de não enxergar. Hoje, usamos o termo " pessoas em situação de rua ", e não há definição mais precisa. A rua é lugar de passagem, de fluxo, de movimento. Ninguém " mora " na rua; a pessoa está, temporariamente (ou tragicamente), detida nela. No entanto, essas pessoas estão em toda parte: na porta do nosso prédio, ao lado do restaurante da moda, sob a marquise da loja onde compramos nossos desejos. A invisibilidade do "não-Outro" O que me espanta é a invisibilidade social . Para a maioria de nós, o mundo se resume ao " eu " ou ao " meu ": o meu celular, a minha rede social, o meu colega. A pessoa na calçada torna-se o não-outro . Passamos por cima de vidas como se fossem obstáculos geográficos. Não vemos que aquele papelão é, na verdade, um armário, uma cama, uma mesa, um refúgio. Ignoramos que ali existe fome, silêncio e, aci...