O invisível diante de nós
Existe algo que, mesmo depois de anos de caminhada, ainda me toca profundamente no cotidiano: a nossa capacidade de não enxergar.
Hoje, usamos o termo "pessoas em situação de rua", e não há definição mais precisa. A rua é lugar de passagem, de fluxo, de movimento. Ninguém "mora" na rua; a pessoa está, temporariamente (ou tragicamente), detida nela. No entanto, essas pessoas estão em toda parte: na porta do nosso prédio, ao lado do restaurante da moda, sob a marquise da loja onde compramos nossos desejos.
A invisibilidade do "não-Outro"
O que me espanta é a invisibilidade social. Para a maioria de nós, o mundo se resume ao "eu" ou ao "meu": o meu celular, a minha rede social, o meu colega. A pessoa na calçada torna-se o não-outro.
Passamos por cima de vidas como se fossem obstáculos geográficos.
Não vemos que aquele papelão é, na verdade, um armário, uma cama, uma mesa, um refúgio.
Ignoramos que ali existe fome, silêncio e, acima de tudo, um grito mudo de: "Por favor, me veja".
Muitas vezes, as pessoas tropeçam nesses corpos porque seus olhos estão colados nas telas. Poderia ser uma "coisa", mas é um ser humano - alguém com a mesma estrutura psíquica e as mesmas carências de quem segura o smartphone.
O Espelho de Narciso
Como dizia Caetano Veloso, "Narciso acha feio o que não é espelho". Tendemos a repelir o que é diferente, o que nos confronta. O "desterritorializado" (eu adoro esta palavra; o que nos territorializa?) nos assusta porque ele não tem as âncoras que usamos para nos definir: uma chave de casa, uma geladeira cheia, um travesseiro macio.
O que acontece quando olhamos nos olhos? Quando saio do trabalho, eu volto para o meu porto seguro. Mas, no caminho, eu escolho olhar. Um "boa noite" ou um "fique com Deus" é mais do que educação; é um ato de reconhecimento de que aquele ser existe.
Mundos Paralelos
Curiosamente, entre eles - os que habitam o asfalto - existe uma rede de cumplicidade, olhares e afetos que nós, "os de fora", raramente percebemos. É um barulho que não ouvimos. Eles nos observam como um espetáculo estranho, enquanto nós os evitamos como se fossem sombras de um mundo que não queremos acessar.
São dois universos que se cruzam, mas não se comunicam.
A distância mais difícil de atravessar não é a porta de casa, mas o espaço que separa o nosso olhar da nossa capacidade de nos importar.Para refletirmos juntos: A grande questão que fica não é apenas sobre quem está na rua, mas sobre o que está dentro de nós. O que significa, afinal, "fora" e "dentro"? Em qual miséria interna estamos mergulhados quando escolhemos não ver o humano à nossa frente?
Comentários
Postar um comentário