A (in)completude do outro?
Uma determinada foto me chamou muito a atenção. Vi no status do WhatsApp, há um tempo, e me chamou a atenção pois eu sabia que tinha um significado para aquela pessoa que estava postando a foto.
E, há algumas semanas, recebi novamente a foto através do grupo do Telegram “Psicanálise e você”. E o dizer da foto vinha com: "A pessoa que te aconselha não é perfeita e tem seus próprios problemas. Mas talvez ela te dê a peça que está faltando em você".
E, nos debates (sempre muito bons!) entre os membros do grupo, surgiram algumas questões que gostaria de dividir com vocês, aqui, nos textos.
A foto é isso, autoexplicativa: um está bastante incompleto. Faltam muitas partes dele. Mas, ainda assim, ele oferece uma peça (que, para mim, parece dele mesmo, da sua própria incompletude) para o outro, que tem apenas um único espaço vazio. Este espaço vazio que está na altura do coração.
Me lembra do mito do Kyron, do Curador Ferido.
Um membro do grupo do Telegram acredita que nem sempre as peças oferecidas pelo outro se encaixam naquele que recebe. É muito difícil que uma pessoa tenha, exatamente, um encaixe para o seu "problema". Não necessariamente há este encaixe. E, com isso, abriu o debate.
Eu opinei a respeito desta imagem, usando a minha profissão - como Psicóloga - como exemplo. Ou seja: ainda que eu - enquanto Psi - esteja incompleta, e que me faltem muitas peças, eu posso oferecer uma peça (que pode ser minha mesma ou da própria história do outro) - para "completar" um não preenchimento do outro. Apesar de também achar que seremos sempre seres incompletos.
Jung já dizia que o processo de individuação é eterno, contínuo, sem fim.
E, independente de qualquer profissão, penso que a gente pode sempre oferecer algo nosso para o outro, mesmo que falte na gente. Podemos oferecer um ombro para um amigo que esteja sofrendo (não tem uma frase dessas de internet que diz “guardei minha dor na gaveta e fui cuidar da dor do outro”?), mesmo que nós estejamos com os nossos próprios problemas. E aquele que pode estar endividado, mas que compra uma comida para alguém faminto?
Ou a nossa incompletude pode fazer sentido para o completo? Conversando até com uma amiga, ontem, nos demos conta da dor de uma e da dor de outra.
E uma outra colega diz que, quem analisa a situação por fora, tem sempre uma visão mais ampla e imparcial daquilo que estamos vivendo, podendo nos mostrar algo (uma peça) que não vimos e nos ajuda a encontrar a saída (a completar os nossos não-preenchimentos). Pode não ser a completude ou plenitude, mas pode ser a pecinha que faltava do quebra-cabeça.
E o colega que promoveu a discussão opina e diz que sempre achou os problemas ímpares demais para que outra pessoa, mesmo que esta seja um(a) Psi para ter o encaixe certo para eles. Pode ser que haja um norte, mas o encaixe certo mesmo, tem pouca probabilidade de existir. Eu concordo. A gente jamais vai completar o buraco do outro. Mas a foto mostra isso: é o oferecimento. Não a completude.
E uma outra colega diz que, mesmo que esteja ferida, por alguma questão sua, da vida, consegue, ainda assim, ajudar alguém. E o ajudar o outro faz com que a sua própria ferida cicatrize um pouco. E conclui que o altruísmo tem efeito curador. Cura-dor.
Eu, respondendo ao colega, exponho a minha também opinião: em geral, o(a) Psicólogo(a) só provoca o encaixe. Quem faz o encaixe (im)perfeito é o outro. E a própria foto diz isso. O personagem mais incompleto não enfia o quadradinho no buraco do outro personagem. Ele mostra o quadradinho para ele. Pode ser que ele faça outra coisa com aquele quadradinho. Com aquela “provocação”.
A colega concordou e diz que cada ser é peculiar e tem os seus problemas. E é esta individualidade que nos torna únicos e belos. E ninguém - nem mesmo os Psicólogos - podem agir pelo outro, encaixar as peças do outro, ainda mais quando se fala do âmbito Psi. As atitudes são exclusivas de cada um. As consciências, idem.
Por isso, também, às vezes, é tão difícil lidar com alguns seres humanos. E, muitas vezes, é difícil lidar conosco mesmo. Com as nossas incompletudes.
E o Psicólogo, em geral, não tem todas as respostas. E é bom que não tenha mesmo, sobretudo as respostas para o outro. O psicólogo, fazendo perguntas, propondo questões, interpretando, e o próprio paciente quem vai encaixando as suas peças internas.
A pergunta que fica é: sendo psicólogo ou não, como você lida com a sua própria incompletude? Quais são as suas incompletudes? E de que forma você se preenche de você mesmo?
[Um obrigada especial à Biana Duarte (@SrtaMonnier), ao Eduardo Franklen (@EduFranklen) e à Franciane (@Soldadinha) e ao Maurício Christo (@Mauricio), pelas valiosas contribuições].

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